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A Growing Tree

Esquecer as preocupações,ficar imerso no momento. Capturar a variedade de emoções e amor do mundo em nosso redor. Capturar a essência das coisas,uma sensação e não uma aparência,emoçoes.

A Growing Tree

Esquecer as preocupações,ficar imerso no momento. Capturar a variedade de emoções e amor do mundo em nosso redor. Capturar a essência das coisas,uma sensação e não uma aparência,emoçoes.

11.10.20

Viver é raro...


Kika

Parece impossível, algo que nunca vai acontecer, mas não, é inevitável. Um dia acontece.

E nesse dia o mundo desaba, tudo deixa de importar, perdes as forças, mas ao mesmo tempo tens de carregar o «mundo» às costas.

Qualquer pessoa chega a um temido ponto na sua vida que toma consciência da mortalidade das pessoas, principalmente dos mais próximos, principalmente dos nossos pais.

Como qualquer um, para mim tornou-se uma constante batalha contra o tempo, de modo a aproveitar todos os momentos, fotografar mentalmente todos os sorrisos, gravar cada risada, cada conselho, cada abraço, cada afago...

Não, não perdi os meus pais. Não perdi fisicamente, mas mentalmente estou a perder um deles a olhos vistos.

Depois de alguns meses a cuidar da minha avó até ao dia que a perdemos, foram dias cansativos. Cuidar de uma pessoa que esteve sempre presente, uma pessoa que ajudou a criar-te, que te ensinou tanto e que de um momento para o outro não sabe quem és, te insulta, que chama «Oh da guarda!!!» em plenos pulmões quando estás a tentar agasalha-la, que acama e nunca mais abre os olhos...... É cruel.

É aterrorizante passares as noites ao lado da sua cama, de modo a hidratar e alimentar por sonda, acudir se mostra um esgar de dor, impedir que tire a sonda naso-gástrica num momento de desespero, e, de manhã, passas uma água fria pela cara e vais trabalhar, para retomar ao turno na próxima noite.

Sim, é cansativo. E o momento em que verificas que, depois de todo o seu sofrimento, finalmente acabou, não sente mais dor, é um momento em que sentes um alívio, em que sai um peso da alma, mas ao mesmo tempo, não sentes mais o pulso, deixas de ouvir o seu coração, deixas de sentir a sua respiração... O sofrimento dela acabou, mas o nosso continua.

Fazemos as nossas despedidas e sabes que tens de estar pronta para a qualquer momento a tua mãe cair na realidade, pois ela perdeu a sua mãe. E então retomas a tua necessidade inata de proteger e cuidar dos teus. Mas os dias vão passando, a dor mantém-se, até começar a ser suportável, e depois chega o momento em que ficam apenas as recordações boas do passado.

E assim parece que tudo vai voltar ao normal. Mas não é tão simples como isso.

Um dia, dentro da tua normalidade, começas a notar pequenos atos que te fazem lembrar algo, mas nem sabes o quê. Começam uns pequenos esquecimentos. Surgem atitudes e comportamentos que nunca viste a tua mãe ter.

Ignoras os sinais porque estás cheia de trabalho e não podes perder tempo a atender os telefonemas repetitivos. Irritas-te com as constantes perguntas e conversas sobre o mesmo tema. Tens respostas ríspidas aos seus comentários fora de contexto. 

Estás ocupada com tanto trabalho que tens para fazer no escritório, que só queres chegar a casa e dormir, nem uns minutos pensas dispensar para estar com os teus, só a saber como foi o seu dia.

Queres ir dormir pois amanhã tens de ir cedo para o escritório. Continuas a trabalhar 10 ou 11 horas por dia, quase sem vida social, apenas a ir para casa para dormir, querer os fins-de-semana para relaxar, não pensar em nada, sair um pouco…

Até que te bate. Nem é um acordar para a realidade, é a realidade de te cai em cima, como uma bomba!....

Os sinais estão todos lá: já os viste antes, já passaste pelas mesmas conversas no passado, há algo que não está bem e que estava no fundo da tua consciência, mas que ainda não tinhas tido a coragem de admitir. E assim perdes o folego de um momento para o outro: parece que não consegues respirar, não sabes para onde foi o tempo, não queres dizer as palavras em voz alta, nada faz sentido mas tudo se encaixa como peças de um puzzle.

Passas as noites acordada a tentar arranjar solução para que tudo volte á normalidade, mas não vai voltar. Vais ter uma nova normalidade completamente aterradora.

Tens de conviver com esta terrível doença, doença que age matando os neurônios e fazendo desaparecer a personalidade da pessoa. É como que a pessoa perca a capacidade de fixar as novas informações e apenas tem um caderno cheio de informações do passado, que também se vão deteriorar com o passar do tempo. E com o avançar desta doença aterradora, o peso sobre quem cuida aumenta.

Já não bastava estares a perder uma das pessoas que amas a cada dia que passa, a perderes a pessoa com quem passavas horas a conversar, a desabafar, a rir, mas agora tens de cuidar de uma pessoa que não reconheces. Fisicamente é ela, é a mãe que sempre te apoiou, é a mãe que te criou e ajudou a tornares a pessoa que és hoje, é a tua mãe! Mas também não é a tua mãe…. Tens a tua frente a pessoa que identificas á distância, ou ao telefone a voz reconheces num piscar de olhos, mas no mesmo momento, sabes que a cada minuto que passa, é menos um pouco dela que tens a tua frente.

E com a nova realidade, todas as tuas prioridades mudam. Pelo menos para mim.

O trabalho passa a ser um meio de te sustentares, mas não o teu modo de vida. Queres passar o maior tempo possível com os teus, para aproveitar todos os momentos, mas passas a ter sobre os ombros um novo papel: tens o papel de filha, de amiga, de trabalhadora, de companheira, de seres tu, e acresce a responsabilidade de ser cuidador.

Cuidador de quem cuidou de ti. E essa é a tua nova realidade, e vai ser até um dia. Um dia que temes a cada segundo que passa. Um dia que nunca julgaste que poderia chegar.

Mas um dia que te ensina a viver e não simplesmente existir. Arranjas forças para fazer tudo, sem pensar nas consequências para o teu futuro, fazes o que é preciso e vais além do que pensarias aguentar de modo a que eles estejam bem. E assim vais resistindo, ganhando forças em pequenos e raros momentos de sanidade, de risota, de brincadeira. Vais suportando todos os assuntos que caem sobre ti de modo a que a vida deles seja mais fácil, menos preocupante, arranjas tempo para tudo o que importa, e aproveitas todos os instantes como únicos e efémeros.

IMG_20201011_210029.jpg

 

04.10.20

Do not go gentle into that good night


Kika

Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light."

(Dylan Thomas)